terça-feira, 12 de dezembro de 2017

66. O custo de um sonho

Este é um cálculo que deve ser muitíssimo bem planejado na hora de uma mudança de país se a mesma não foi motivada por oferta de trabalho ou de reunião familiar. 
Para quem quer arriscar e tentar a vida, já que tem a idéia fixa que o país de origem "não tem mais jeito", a alternativa é realmente pesar as coisas e fazer certas perguntas que eu mesmo não me fiz.

- Vou mesmo conseguir arranjar emprego para me manter e manter os meus familiares caso estes me acompanhem?
- Quanto tempo demorará esta busca de emprego?
- Este emprego me dará oportunidade de galgar um caminho até um conforto financeiro?
- Minha família irá sofrer com esta mudança?
- Vou conseguir estar preparado para talvez aceitar o fato de que minha vida se estagnará por um longo período e por mais que eu trabalhe ou tente alternativas, as coisas não funcionem como se pensava, simplesmente por talvez a economia local não estar preparada e nem a cultura local for aberta ao estrangeirismo no mercado de trabalho?

Caros leitores, a maioria do que se encontra na internet é o sonho, o visto, a documentação, estar ilegal ou legal, e isso é apenas o começo e não o meio para se manter financeiramente. Existem vários clichês e dentre eles posso citar:

- Ah, mas eu tenho passaporte tal (europeu) ou consegui o permanent residence card (EUA, Austrália, Canadá,...) e para mim vai ser MOLEZA, é só chegar e apresentar o almejado documento que tenho emprego garantido. 
Minha resposta é: Passaporte, nacionalidade ou documento não geram renda, não geram dinheiro por si só. Mais vale ser um MARCIANO com emprego garantido e que pague bem, e que por pagar bem te levará a documentação que tanto se fala, pois fica óbvio que o dinheiro manda mais que um documento e não vice-versa.

- Ah, mas eu sou formado, doutor e falo o idioma local.
Minha resposta é: Ok, tem mais chances de comunicar e de entender as pessoas. Teu estudo pouco representará em países estrangeiros, o que vai contar mesmo é se tens o registro no conselho/ordem de classe profissional, caso tenhas profissão regulamentada.

- Ah, mas eu vou começar de baixo, vou indo e indo e logo estou tranquilo
Minha resposta é: Pode ser que sim, mas veja ao seu redor, os imigrantes vindos nesta época atual conseguem grandes sucessos profissionais no país de origem do leitor??

- Ah, mas tu estás ilegal e por isto não consegue nada.
Minha resposta é: Logicamente que é preciso estar com documentos em dia e eu sou o primeiro a concordar, mas pensando de uma maneira mais ampla, o importante mesmo é ter os recursos  e dinheiro pois com este tu consegues muita coisa e sem estes quase nada.

Em sua grande maioria, existem muitos vídeos e muitos textos contando como foi a chegada, como foi a com a documentação, como foi para alugar uma casa, abrir conta em banco, etc etc.  Mas o dia-a-dia, e talvez uma declaração de como a vida realmente tomou rumo depois de toda a euforia, são textos raros de se ler, a não ser os escritos por aqueles que foram abraçados de forma diferente pela cultura do país de imigração, como é o caso dos casados com estrangeiros e que talvez para a grande maioria dos imigrantes, não servem de parâmetro para uma reflexão mais aprofundada.

Portanto, o que muita gente faz é imigrar na incerteza, ou melhor, na pseudo-sonho-certeza de um futuro melhor. No caso de pessoas que não tem nada a perder, totalmente devastadas ou de extrema carência econômica, o pouco pode ser muito, mas e no caso de você leitor, que é uma pessoa instruída, com bom nível educacional e social e que quer se aprofundar no assunto: Largar uma vida sem alguma retaguarda duradoura (pensão, alguéis, aposentadoria/reforma) é mesmo uma decisão viável este sonho??? 
Eu pergunto exatamente porque, o leitor que dedicou parte do seu tempo para ler um texto assim é uma pessoa que analisa todos os fatos e que não vai simplesmente na empolgação, pois este  texto realmente não vende "o sonho", e que no caso deste blog é o de viver em Portugal, mas que pode ser também aplicado em qualquer lugar.

2 comentários:

  1. Olá Fernando! Reflexões urgentes e necessárias, essas que você nos propõe. No nosso caso (eu e cônjuge), iremos como aposentados, mas sem dúvida balancearíamos todas as variáveis que você citou, se ainda estivéssemos na ativa. De fato, as narrativas nas redes sociais que alimentam o "sonho" não podem ser consideradas paradigmas por quem almeja emigrar e reconstruir a vida em outro país, até por uma razão humana e também estatística: pequena amostragem, e propensão humana a destacar somente os sucessos pessoais, deixando de lado os resultados não tão favoráveis.Parabéns pelo post!

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    1. Olá Senhor Péricles, é isso mesmo! Para quem está na ativa, Portugal realmente não é um país fácil e posso afirmar que a Europa em geral também não. Para aqueles que não tem nada a perder, talvez um nada x nada estrangeiro seja a mesma coisa. Estou vendo a partir deste ano de 2018, vários amigos indo embora pois o sonho virou pesadelo. Muitos que chegaram em 2016 ou início de 2017 não conseguiram receita mensal, emprego ou mesmo aqueles que se aventuraram e abriram um negócio não o conseguiram manter. Aqui é muito bom, muito bom mesmo mas é muito melhor para aqueles que daqui não dependem. Um abraço!

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